Parece que a primavera chegou para ficar. Pelo menos é o que dizem... ontem foi o equinócio de Primavera, o que indica (pra mim pelo menos) que estamos a meio caminho para o verão.. finalmente!!! Porém, o tempo aqui não parece tão amigável quanto o som promissor da palavra "primavera". O frio diminuiu um pouco, mas continua intenso e constante, para a minha desgraça. Agora o que marcou essas ultimas semanas foi um vento cabuloso e uma chuva infeliz. Não é chuva de verdade, mas uma garoinha fria e fina que se estende por dias a fio. Quando a garoa da uma trégua, vem o vento, desses que sopram em todas as direções possíveis, e fazem um simples passeio de bicicleta nua rua plana me sentir como aquele cara de Bicicletas de Belleville.
Porém, num sopro de glória da poderosa mãe natureza (e da BBC Weather também), consegui prever uma pequena janela nesse tempo miserável. Entre terça e quarta abriria um solzinho, então aproveitei essa boiada e o trampo que não começou ainda pra sair um pouco de casa e explorar um pouco mais essa ilha na qual me encontro. E o resultado foi sensacional!
Na segunda de manha, peguei o ônibus. Não queria ir muito longe, por motivos econômicos, então escolhi a pequena cidade de Bath, no sudoeste. Ja tinha ouvido falar da cidade (principalmente pelo professor do meu curso, que mora nessas redondezas), principalmente sober as influências romanas, com um banho romano que havia por la. Decidi conferir.
A cidade é pequena (menor que Oxford), mas muito aconhegante. Às margens do rio Avon (o mesmo da cidade do Shakespeare, que fica bem mais ao norte), o terreno é um pouco acidentado, com várias ladeiras, o que em troca de um esforço maior na locomoção nos presenteia com pontos privilegiados para apreciar a paisagem. No primeiro dia, visitei os tais banhos romanos. Não tinha a exata noção de que o império romano haveria se extendido até a inglaterra. Ainda assim, parecia que a cidade de Bath foi uma vila bastante importante, tanto pela sua posição geográfica estratégica quanto pela existência de uma nascente de águas termais. Essa termal deu origem a um complexo lúdico-esportivo-higiênico-medicinal-religioso bastante importante, e visitado por milhões de peregrinos vindos de diversas partes do império. A nascente foi atribuída aos poderes da deusa Minerva, e teria propriedades curativas miraculosas. Nos banhos, diversas atividades, desde academias (palestras), salas de massagem, sauna a vapor, banhos própriamente ditos e piscinas onde, no meio de todas essas atividades, as pessoas se reuniam para socializar. É claro que, com a derrubada do império romano e o domínio dos normandos e bretãos na região, que não eram lá muito chegados nessa coisa de higiene, os banhos foram esquecidos, templos saqueados, e o lugar foi sendo soterrado e outras coisas construídas em cima. Até que o lugar foi redescoberto nos idos do século XIX (acho), e o lugar foi restaurado e recuperado. Apesar disso, metade do complexo que forma os banhos ainda está inexplorado, debaixo de casa e outras construções da cidade. Mas o mais impressionante de tudo é a engenhosidade dos romanos. Isso sim é que era engenharia. Os sistemas de drenagem e canais da nascente para as piscinas e para outras partes, construídos a 2 mil anos, funcionam perfeitamente até hoje.
Quando cheguei a cidade também, uma conveniente e feliz surpresa. Descobri que de Bath saíam passeios para Stonehenge. Como esse era um lugar que certamente estava entre as minhas prioridades de visita nessa viagem, achei que essa seria a oportunidade perfeita. No segundo dia, fui à expedição. O lugar é mágico, uma planície muito bonita (e hoje em dia extensamente povoada por ovelhas). Não era permitido entrar dentro do Stonehenge, tive que me contentar com um caminhozinho de cimento que rodeava o lugar, e o audioguide que vinha no pacote da entrada ao sítio. Vendo o monumento, continuo me apegando à teoria de que deve haver alguma interferencia de ETs para a construção de uma coisa tão inusitada e megalomaniaca. O que resta hoje em dia, pelo que dizem, é cerca de 40% do monumento original, que devia ser impressionante, pela sua geometria e composição com a paisagem local. De qualquer jeito, um passeio que vale a pena, apesar de muitos não acharem a menor graça em ver m bando de pedras tortas empilhadas.
As fotos podem ser conferidas no Flickr:
http://www.flickr.com/photos/familiapincherle/sets/72157604172500170/
Ainda estou devendo um post sobre a minha socialização com os nativos Oxfordenses, a comuna brasileira, e minhas experiências musicais e virtuais (aspectos muitas vezes coincidentes e alinhados). Cenas do próximo capítulo...
sexta-feira, 21 de março de 2008
domingo, 9 de março de 2008
ler e cozinhar
Bom, assegurado um trabalho (que começará semana que vem, já que o restaurante ainda nao abriu), esses dias creio que estou passando talvez pela fase mais aguda do meu "retiro espiritual/intelectual", coisa que já imaginei desde antes de embarcar na viagem. Enquanto a rede de contatos que eu formo não toma corpo nem inércia, tenho passado bastante tempo sozinho. O pessoal da casa é muito simpatico, mas também nada invasivo.. pelo contrário, reina muito mais o "cada um na sua" por aqui, o que não é nada mau, apesar de não rolar muita interação ou programas interessantes. O Beto também não da muito as caras. Mas, quem me conhece sabe que essa solidão não é de nenhum modo triste. Aproveito esses tempos de calmaria pra botar as idéias e os sentidos em ordem. Duas coisas que eu tenho feito bastante aqui em casa: ler e cozinhar.
Até pouco tempo depois de ter mudado para a casa, já tinha lido quase todos os livros que trouxe na viagem... o que não li foi porque descobri que não me interessava tanto. Mas aproveitando que os livros são mega baratos por aqui e que eu tenho tempo e vontade pra isso, devorei "Assim falou Zarathustra" do Nietzsche (que comprei pelo incrivel valor de GBP 3,99) em pouco mais de uma semana. Estou agora da metade para o fim de um outro livro sobre a vida do filósofo Espinosa e do Leibniz. E a lista de livros cresce enquanto visito as livrarias daqui e vagueio pela internet. A próxima parada agora é deixar a filosofia pura de lado e explorar um pouco pensamentos mais contemporâneos, principalmente ligados a colaborativismos, ciberespaço e por ai vai. Acho que tudo isso pode se compor muito bem com os rumos que estou tomando de pensamento e ação, mesmo antes dessa viagem. De fato, vejo essa viagem não como uma quebra, uma experiência totalmente inovadora na minha vida, e sim como uma concretização e uma potencialização de diversas mudanças que já se iniciavam bem antes. Mas essa discussão deixarei mais pro fim da viagem, quando estiver em melhor posição para avaliar minhas experiências por aqui, que mal começaram.
Sobre cozinhar, o mais extraordinário é o fato de que a casa tem fogão a gás!!! Ja me desentendi muito com os fogões elétricos que encontrei pelos albergues por aqui, fiquei muito feliz de ter a possibilidade de cozinhar decentemente quando cheguei na casa. Tenho me especializado bastante misturas. Brinco até comigo mesmo de abrir um restaurante onde os praos são grandes misturas. Os nomes dos pratos seriam determinados de acordo com a origem e a combinação dos elementos, como "mechidão" (brasileiro), "soborô" (oriental), "le górórobe" (frances), "grude da mama" (italiano) e dai pra baixo! Bom, de modo geral as misturas que eu faço (muitas sem nacionalidade definida) saem muito boas, modéstia a parte!
Bom, fico devendo mais um post, sobre minhas experiencias musicais por aqui, o que está ligado aos meus avanços na comunidade brasileira também. Cenas do próximo capítulo...
Até pouco tempo depois de ter mudado para a casa, já tinha lido quase todos os livros que trouxe na viagem... o que não li foi porque descobri que não me interessava tanto. Mas aproveitando que os livros são mega baratos por aqui e que eu tenho tempo e vontade pra isso, devorei "Assim falou Zarathustra" do Nietzsche (que comprei pelo incrivel valor de GBP 3,99) em pouco mais de uma semana. Estou agora da metade para o fim de um outro livro sobre a vida do filósofo Espinosa e do Leibniz. E a lista de livros cresce enquanto visito as livrarias daqui e vagueio pela internet. A próxima parada agora é deixar a filosofia pura de lado e explorar um pouco pensamentos mais contemporâneos, principalmente ligados a colaborativismos, ciberespaço e por ai vai. Acho que tudo isso pode se compor muito bem com os rumos que estou tomando de pensamento e ação, mesmo antes dessa viagem. De fato, vejo essa viagem não como uma quebra, uma experiência totalmente inovadora na minha vida, e sim como uma concretização e uma potencialização de diversas mudanças que já se iniciavam bem antes. Mas essa discussão deixarei mais pro fim da viagem, quando estiver em melhor posição para avaliar minhas experiências por aqui, que mal começaram.
Sobre cozinhar, o mais extraordinário é o fato de que a casa tem fogão a gás!!! Ja me desentendi muito com os fogões elétricos que encontrei pelos albergues por aqui, fiquei muito feliz de ter a possibilidade de cozinhar decentemente quando cheguei na casa. Tenho me especializado bastante misturas. Brinco até comigo mesmo de abrir um restaurante onde os praos são grandes misturas. Os nomes dos pratos seriam determinados de acordo com a origem e a combinação dos elementos, como "mechidão" (brasileiro), "soborô" (oriental), "le górórobe" (frances), "grude da mama" (italiano) e dai pra baixo! Bom, de modo geral as misturas que eu faço (muitas sem nacionalidade definida) saem muito boas, modéstia a parte!
Bom, fico devendo mais um post, sobre minhas experiencias musicais por aqui, o que está ligado aos meus avanços na comunidade brasileira também. Cenas do próximo capítulo...
"neg - ócio"
depois de muuuito tempo, consegui organizar minha cabeça pra escrever de novo aqui. Muitas coisas ja aconteceram desde meu último post, mas também em outros sentidos as coisas estão bem paradas por aqui. Vou separar o post em dois, pra ficar mais light pra quem não tem muita paciencia pra ler coisas grandes (como eu!)
Não imaginei que a caça por trabalho fosse ser tão dificil o quanto no fim foi. Fiquei mais ou menos duas semanas, entre contatos na internet e corridas pela cidade entregando currículos, me perguntando se o problema estava no meu currículo ou na cidade mesmo. Ainda não cheguei a uma conclusão, mas talvez um pouco dos dois. Talvez porque eu sou sincero demais em entrevistas, talvez porque meu currículo é recheado de coisas interessantes mas nenhuma experiência com bar e restaurante... em suma, duas semanas de correrias aparentemente infrutíferas.
Minha segunda entrevista, já no dia 28 de Fevereiro (quando por sinal completei um mês de estadia na Europa), ocorreu semm sequer entregar nenhum currículo. Era um anúncio na internet a procura de brasileiros que falam inglês para um novo restaurante brasileiro que vai abrir aqui. A mulher que me entrevistou me adorou, disse a ela que pretendia trabalhar full-time (Acho melhor trabalhar bastante agora pra juntar uma grana e depois viajar mais pro meio do ano. Concentra melhor as atividades). A partir dessa entrevista então passei a me interessar mais pela rede de brasileiros aqui de Oxford, que parece bem grandinha... estou aos poucos encontrando meus caminhos agora nesse networking, que detalharei melhor a seguir. O que quero deixar de resumo da ópera aqui é que o poder e a sinceridade do networking e do sub-mundo pra mim sempre foram muito mais forte do que o mundinho de pessoas responsáveis e trabalhadoras. Não que eu tenha entrado no sub-mundo aqui pra conseguir esse trabalho, mas agora vejo que se eu tivesse ido pelo caminho de formar uma rede de contatos o trabalho poderia ter saído bem mais facil, ao invés de anonimamente colocar toda minha confiança no quão bom ator e bom escritor sobre a minha vida eu posso ser pra vender o meu corpo e a minha energia. Mas, é tropeçando que se aprende a caminhar né. E as vezes voce precisa tropeçar varias vezes no mesmo buraco.
Próximos posts: solidão x comunidade. O melhor dos dois
Não imaginei que a caça por trabalho fosse ser tão dificil o quanto no fim foi. Fiquei mais ou menos duas semanas, entre contatos na internet e corridas pela cidade entregando currículos, me perguntando se o problema estava no meu currículo ou na cidade mesmo. Ainda não cheguei a uma conclusão, mas talvez um pouco dos dois. Talvez porque eu sou sincero demais em entrevistas, talvez porque meu currículo é recheado de coisas interessantes mas nenhuma experiência com bar e restaurante... em suma, duas semanas de correrias aparentemente infrutíferas.
Minha segunda entrevista, já no dia 28 de Fevereiro (quando por sinal completei um mês de estadia na Europa), ocorreu semm sequer entregar nenhum currículo. Era um anúncio na internet a procura de brasileiros que falam inglês para um novo restaurante brasileiro que vai abrir aqui. A mulher que me entrevistou me adorou, disse a ela que pretendia trabalhar full-time (Acho melhor trabalhar bastante agora pra juntar uma grana e depois viajar mais pro meio do ano. Concentra melhor as atividades). A partir dessa entrevista então passei a me interessar mais pela rede de brasileiros aqui de Oxford, que parece bem grandinha... estou aos poucos encontrando meus caminhos agora nesse networking, que detalharei melhor a seguir. O que quero deixar de resumo da ópera aqui é que o poder e a sinceridade do networking e do sub-mundo pra mim sempre foram muito mais forte do que o mundinho de pessoas responsáveis e trabalhadoras. Não que eu tenha entrado no sub-mundo aqui pra conseguir esse trabalho, mas agora vejo que se eu tivesse ido pelo caminho de formar uma rede de contatos o trabalho poderia ter saído bem mais facil, ao invés de anonimamente colocar toda minha confiança no quão bom ator e bom escritor sobre a minha vida eu posso ser pra vender o meu corpo e a minha energia. Mas, é tropeçando que se aprende a caminhar né. E as vezes voce precisa tropeçar varias vezes no mesmo buraco.
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